terça-feira, 10 de março de 2009

A ilustração.


Foto: Henely Avelar
Alguém já pensou que pode ser realmente verdade esse papo de "pensamento positivo"? Não no sentido em que o Universo conspire a seu favor para que aconteça algo desejado, mas falo mesmo é de um pensamento interno que nós próprios inventamos para nos acalmar ou manter a sanidade.
Anna me contou que por vezes (e muitas) se pega pensando coisas inúteis, impossíveis-fora suas angústias de sempre em relação as pessoas, lugares e submissões-mas o que ela quis me contar mesmo é que percebeu a existência de uma maneira além da leitura e da escrita em que ela consegue de uma certa forma "enganar" sua lamentações e angústias, ela criou um sistema de pensamento que funciona mais ou menos assim:
Quando o sentimento é referente a saudade, ela não conta mais os dias no calendário e nem fica pensando o que poderia estar acontecento se não houvesse a distância, ela pensa que existem várias coisas a serem feitas por ela até que o último risco no calendário esteja no dia esperado.
Outro exemplo, domesticar o pensamento (no sentido mais leve possível da palavra) a não esperar. Não esperar ninguem, nenhum fato, nenhuma hora, nenhum presente, nada. O que virá, o que acontecer, terá o sabor mais quente, vai fazer o coração disparar cheio de borboletas e fará um poco mais de sentido.
Anna descobriu, que para fazer sentido(TUDO) só dependerá dela, de sua razão e de como pretende conviver com o que a própria, construiu dentro de si.
Construções e Divagações.
Tulasi.

Um comentário:

  1. Bom, eu acho que pensar positivo não vai automaticamente, por si só, matar a fome de ninguém hehe. A vantagem do pensamento positivo é que ele pode impulsionar uma mudança de postura, uma mudança de atitude e nessa mudança é que poderá começar a reverter-se uma situação adversa. Essa é a "grande boa" do pensamento positivo... o que pode ser gerado a partir dele. O pensamento positivo sem esse passo adiante não adianta muito. As pessoas - e tenho absoluta certeza que esse não é o seu caso - possuem uma certa dificuldade em equilibrar pensamento crítico e pensamento positivo. Em geral ou o sujeito é crítico e acaba se afundando num baita de um negativismo... ou o sujeito adere àquele "pensamento positivo" vulgar e típico da literatura de auto-ajuda, isto é, aquele que diz "olhe a miséria com outros olhos e ela desaparecerá". Não devemos, ao meu ver, adotar um pensamento positivo simplesmente para varrer tudo o que há de horrível (dentro e fora de nós) para debaixo do tapete. É preciso ver as coisas como ela realmente são... se há corrupção, fome, exploração, violência etc, então que a olhemos como tais e tenhamos a nossa postura de crítica em relação à esses e outros males. O pensamento positivo que eu defendo é aquele que não desmente a crítica, mas que se afina com ela. É aquele pensamento positivo que diz: "As coisas estão ruins (no mundo ou em mim), mas há um caminho possível de mudança". Caso contrário, nossos pensamentos são apenas pensamentos... e não transformam nada na nossa realidade. No caso do negativismo crítico, caímos naquele niilismo do "não há jeito para nada, então não vou fazer nada", e no caso do otimismo cego caímos no "tudo está lindo maravilhoso, então também não vou fazer nada". Somente o otimismo crítico é capaz, além de ver a realidade tal como ela é, sem máscaras, de transformar essa realidade... e isso eu falo tanto do ponto de vista social quanto pensando mesmo dilemas próprios da nossa vida. Quando você fala em "domesticar o pensamento", imediatamente sou levado a pensar na filosofia de Descartes. Descartes foi um grande racionalista... ou seja, acreditava mais do que qualquer um no poder e na independência da Razão (razão que coloco aqui em R maiúsculo, tal como pensada por ele). Em um de seus livros mais famosos - O Discurso do Método - Descartes procura um método para raciocinar corretamente, e acertar. E num determinado momento da sua obra, Descartes fala em uma "moral provisória", que seriam algumas regras morais que ele usaria até encontrar alguma certeza através do seu novo método. E numa das regras de sua moral provisória, Descartes diz justamente isso: "Mudar antes os meus desejos do que as circunstâncias". Isto é, se uma coisa se mostra impossível, Descartes recomenda que nós a deixemos de desejar. Isso só poderia ter sido realmente dito por um racionalista, que acreditava piamente na idéia de que a Razão estava na controle de tudo... que se guiarmos nossa razão do modo correto, poderemos até mesmo "tirar da cabeça" aqueles desejos que se mostram mais inatingíveis. Pessoalmente acho essa idéia um certo exagero da parte de Descartes. É claro que a Razão tem um poder significativo e que, em diversas situações, podemos pensar o "posso/não posso" com base em algum tipo de bom senso. Não sei, porém, se a Razão realmente pode simplesmente pulverizar algum desejo por sua suposta não-aplicabilidade na vida real. Outros filósofos, como Nietzsche, Rousseau e David Hume, por exemplo, mostraram que a "Razão não é tudo que há". Hume, empirista, disse inclusive que a razão tem pouca influência em nossas decisões... e que nossas escolhas e preferências são motivadas pelo que ele chamou de feeling. Rousseau também dava muito mais preferências para "as paixões" do que para a esfera da racionalidade, muito presente na filosofia iluminista que Rousseau criticava (entrando assim numa baita polêmica com Voltaire). Rousseau diz inclusive que o homem racional, isto é, o homem do século das luzes, não é moralmente superior ao homem primitivo, muito pelo contrário. Enquanto o iluminismo via na valorização da racionalidade um avanço, Rousseau via isso como um regresso. Nietzsche, além de crítico da religião, também foi um grande crítico da racionalidade científica moderna. E é aí que Nietzsche acusa Sócrates, filósofo láaa de trás, de Atenas... porque Sócrates foi, de certa maneira, o primeiro racionalista. Aquele quem, segundo Nietzsche, queria dizer "tudo deve ser racional para ser belo". Não nego Sócrates e não nego Nietzsche. Muita coisa pode-se atingir exercendo nossa racionalidade... em relação à modernidade, os iluministas ofereceram muito pra humanidade. Mas também não acho que tudo deva se guiar pela "voz da razão"... afinal, como dizia Nietzsche, há em nós "um lado dionisíaco, anárquico" que temos tentado suplantar, mas que continua presente em nós.

    Beijos dona Nausineide hehehe :)
    Rafael

    Ps: já disse que adoro o seu nome? Monique, tão bonito :)

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